sábado, 2 de março de 2013

Micrópolis


Homo Domesticus

Sou um homem do campo. Um sujeito do interior sem nenhuma distinção. Um homem comum, com a barriga vazia, a família implorando por comida e dependendo de mim para sobreviver. Nasci para o trabalho cuja rotina dura herdei de meu pai, assim como o pulmão de terra. Os pés cravados no chão sem dele receber nada. Quem pensa que se ganha energia nas trocas diretas entre a pele e o solo se engana. Unhas sujas e pés rachados. Durmo muito cedo. Cochilo no sofá enquanto ouço o som da conversa perder-se, eu afundando no torpor desconexo da falta de sentido. Deixando de ser. Indo embora no entresonho. 
Custa-me dizer alguma coisa. A palavra nunca foi minha amiga e eu nunca precisei dela numa vida dirigida pela ação contínua e sem descanso. Meu trato é seco embora o pasto esteja verde e os animais bem alimentados. Eu mesmo como muito pouco. Eu mesmo preciso de muito pouco. Não sou ninguém, ou melhor, sou ninguém. Tudo o que sou me foi obrigado, desde o nascimento. Não é fácil perceber que as coisas são assim. Nós podendo muito pouco ou nada diante da necessidade. Essa máquina movida por um Deus estranho sobre o qual tudo nos escapa enquanto nos governa.
Quem nos é enquanto somos? É uma pergunta que me sobra sempre no meio da noite quando acordo só e volto a dormir depois de conferir o relógio. Aquilo que me assombra. Sempre a mesma hora e sempre a mesma dúvida. Nem sei se posso chamar de dúvida algo que não sei como me assalta e que não me pertence de nenhuma forma. Nem minha rotina me pertence. Coisa que veio a ser enquanto eu não percebia. Que veio me empurrando na corrente como se fosse um rio barrento. O rio do destino que me constitui.
Coisa estranha pensar assim. Eu que não tenho direito à palavra. Estranho começar agora. Sentir a força de uma necessidade que nunca foi minha me empurrando garganta abaixo pensamentos sem substância. É que fiquei impressionado com a batida de uma canção que visitou minha janela nesta noite sem que a tivesse convidado. Como tudo nessa terra nos vem como um peso que não escolhemos. Veio também que era preciso entender, apesar da falta de recursos de um homem comum, a densidade dessa leveza, do torpor desperto pelo acaso. 
Acontece que nunca acreditei no acaso. Não engulo essa. Não que o mundo fosse formado pelo choque de partículas sem direção navegando o nada. Como explicar então a música em minha janela e a dúvida que sempre me incomoda? São as coisas pequenas que refutam as grandes verdades colhidas da ignorância. As coisas pequenas se alimentam da mesma ignorância das coisas grandes e valem mais que as grandes palavras e servem melhor à desconfiança e alimentam mais desconfiança do que podem todas as certezas. Como a roseira que floresce no centro do pátio de um convento, apesar do inverno. Parte de uma história que ouvi alguém contar.
De qualquer forma a sociedade parece regida sempre pela mesma força de domesticação que pode ser a força mais ameaçadora sobre a terra hoje. Mais que os bichos que infestam os chiqueiros e se instalam nas solas dos meus pés. Há outros bichos mais perigosos que entram em nossa casa com a nossa permissão ou complacência. Que nos confessam de dentro de nossa consciência adormecida, não pelo cansado do trabalho, mas pela preguiça de nossa intimidade devassada. Nós os escravos voluntários ainda continuamos a mercê de um só. O nosso senhor, mais escravo do que nós: nós escravos da ação ele escravo da impotência e do mal que lhe contamina a partir de sua própria posição de comando. O senhor ébrio de poder, inerte em seu trono de grandeza vã, olha sempre para baixo, para aqueles que subjuga e, assim, acaba por se acostumar à baixeza e a se parecer com as forças de baixo; enquanto o escravo oprimido, cujas mãos laboriosas produzem um mundo, olha sempre para cima, aprende a se elevar e se elevaria de fato se não fosse essa praga doméstica que lhe infesta a vida. Alimentados todos pelo delírio cotidiano, escravos todos da necessidade auto-imposta. 
Por que o senhor não se liberta? Por que o servo não se revolta? Por que a miséria do cotidiano sempre se reproduz e as pequenas graças se perdem, sempre, como há de se perder essa insignificante tristeza que se configurou nesse texto desprezível como a  preguiça e o sono e a mansidão de uma vida tramada no silêncio e afogada no nada, irredimida.

Aiko Haiwa

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