Homo Domesticus
Sou um
homem do campo. Um sujeito do interior sem nenhuma distinção. Um homem comum,
com a barriga vazia, a família implorando por comida e dependendo de mim para
sobreviver. Nasci para o trabalho cuja rotina dura herdei de meu pai, assim como
o pulmão de terra. Os pés cravados no chão sem dele receber nada. Quem pensa
que se ganha energia nas trocas diretas entre a pele e o solo se engana. Unhas
sujas e pés rachados. Durmo muito cedo. Cochilo no sofá enquanto ouço o som da
conversa perder-se, eu afundando no torpor desconexo da falta de sentido.
Deixando de ser. Indo embora no entresonho.
Custa-me
dizer alguma coisa. A palavra nunca foi minha amiga e eu nunca precisei dela
numa vida dirigida pela ação contínua e sem descanso. Meu trato é seco embora o
pasto esteja verde e os animais bem alimentados. Eu mesmo como muito pouco. Eu
mesmo preciso de muito pouco. Não sou ninguém, ou melhor, sou ninguém. Tudo o
que sou me foi obrigado, desde o nascimento. Não é fácil perceber que as coisas
são assim. Nós podendo muito pouco ou nada diante da necessidade. Essa máquina
movida por um Deus estranho sobre o qual tudo nos escapa enquanto nos governa.
Quem nos
é enquanto somos? É uma pergunta que me sobra sempre no meio da noite quando
acordo só e volto a dormir depois de conferir o relógio. Aquilo que me
assombra. Sempre a mesma hora e sempre a mesma dúvida. Nem sei se posso chamar
de dúvida algo que não sei como me assalta e que não me pertence de nenhuma
forma. Nem minha rotina me pertence. Coisa que veio a ser enquanto eu não
percebia. Que veio me empurrando na corrente como se fosse um rio barrento. O
rio do destino que me constitui.
Coisa
estranha pensar assim. Eu que não tenho direito à palavra. Estranho começar
agora. Sentir a força de uma necessidade que nunca foi minha me empurrando
garganta abaixo pensamentos sem substância. É que fiquei impressionado com a
batida de uma canção que visitou minha janela nesta noite sem que a tivesse
convidado. Como tudo nessa terra nos vem como um peso que não escolhemos. Veio
também que era preciso entender, apesar da falta de recursos de um homem comum,
a densidade dessa leveza, do torpor desperto pelo acaso.
Acontece que nunca
acreditei no acaso. Não engulo essa. Não que o mundo fosse formado pelo choque
de partículas sem direção navegando o nada. Como explicar então a música em
minha janela e a dúvida que sempre me incomoda? São as coisas pequenas que
refutam as grandes verdades colhidas da ignorância. As coisas pequenas se
alimentam da mesma ignorância das coisas grandes e valem mais que as grandes
palavras e servem melhor à desconfiança e alimentam mais desconfiança do que
podem todas as certezas. Como a roseira que floresce no centro do pátio de um
convento, apesar do inverno. Parte de uma história que ouvi alguém contar.
De qualquer forma a
sociedade parece regida sempre pela mesma força de domesticação que pode ser a
força mais ameaçadora sobre a terra hoje. Mais que os bichos que infestam os
chiqueiros e se instalam nas solas dos meus pés. Há outros bichos mais
perigosos que entram em nossa casa com a nossa permissão ou complacência. Que
nos confessam de dentro de nossa consciência adormecida, não pelo cansado do
trabalho, mas pela preguiça de nossa intimidade devassada. Nós os escravos
voluntários ainda continuamos a mercê de um só. O nosso senhor, mais escravo do
que nós: nós escravos da ação ele escravo da impotência e do mal que lhe
contamina a partir de sua própria posição de comando. O senhor ébrio de
poder, inerte em seu trono de grandeza vã, olha sempre para baixo, para aqueles
que subjuga e, assim, acaba por se acostumar à baixeza e a se parecer com as
forças de baixo; enquanto o escravo oprimido, cujas mãos laboriosas produzem um
mundo, olha sempre para cima, aprende a se elevar e se elevaria de fato se não
fosse essa praga doméstica que lhe infesta a vida. Alimentados todos pelo
delírio cotidiano, escravos todos da necessidade auto-imposta.
Por que o senhor não se liberta? Por que o servo não se revolta? Por que
a miséria do cotidiano sempre se reproduz e as pequenas graças se perdem,
sempre, como há de se perder essa insignificante tristeza que se configurou
nesse texto desprezível como a preguiça
e o sono e a mansidão de uma vida tramada no silêncio e afogada no nada,
irredimida.
Aiko Haiwa
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