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sexta-feira, 8 de março de 2013

Quem pensa em abstrato?


“Pensar? Em abstrato? Salve-se quem puder! Assim ouço alguém exclamar a um traidor já vendido ao inimigo... O que se trata de saber é quem pensa em abstrato. Quem pensa em abstrato? O homem inculto, não o culto. Limitar-me-ei a apresentar alguns exemplos demonstrativos desta tese,  os quais todos reconhecerão que, com efeito, a encerram.
   Um assassino é conduzido ao cadafalso. Para o povo comum não é nada mais que um assassino, talvez as damas, ao vê-lo passar, comentem seu aspecto físico, digam que é um homem forte, bonito, interessante. Ao escutar isto, o homem do povo exclamará indignado; como? Um assassino, e bonito? Um conhecedor do homem tratará de indagar a trajetória seguida pela educação deste criminoso; descobrirá talvez em sua história, em sua infância ou em sua primeira juventude, nas relações familiares do pai e da mãe; descobrirá que uma ligeira transgressão deste homem foi castigada com um dureza exagerada que o fez rebelar-se contra a ordem existente; que o fez colocar-se a margem desta ordem e acabou empurrando-o ao crime para poder subsistir. Pois bem, tudo isso é pensar em abstrato; não ver no assassino mais que esta nota abstrata, a de que  é um assassino, de tal modo que esta simples qualidade destrói ou apaga  nele o que haja de natureza humana.
   ‘Veja, os ovos que me queres vender estão podres!’, diz a compradora à camponesa do mercado. ‘Como?’  - Replica esta - ‘Que meus ovos estão podres? É isto o que essa piolhenta se atreve  a dizer de meus ovos ? Como se não soubesse que seus pais, de tanta fome comiam os cotovelos, que sua mãe fugiu com um francês e sua avó morreu no hospital! Veja que colar tão bonito e cheio  de miçangas leva!  E terias que ver  o tipo de camisa ela usa! De onde será que tirou tantos adornos e tantos chapéus? Se não houvesse oficiais na guarnição, muitas não andariam vestidas assim e teriam de passar o dia cerzindo as meias’. Em uma palavra, a vendedora, levada por sua cólera, não deixa escapar nenhum defeito da compradora. Pois bem, essa velha pensa também em abstrato. Vendo tudo: o colar, os chapéus e a camisa da mulher, seus dedos e outras partes do seu corpo, e até seus pais e toda a sua família, única e exclusivamente através do horrível delito cometido por ela ao dizer que os ovos que vendia estavam podres. A partir desse momento, vê tudo o que se refere a essa dama tingido pela cor dos ‘ovos podres’. Por outro lado, creio que aqueles oficiais de que fala a vendedora - se é certa a sua malícia, do que muito duvidamos - poderiam ver na dama coisas muito diferentes.
E, passando agora da velha aos serventes, é preciso dizer que os piores colocados são os que têm de servir a pessoas de estado social inferior e pouca fortuna. Nisso, como em tudo, o homem inculto pensa em abstrato, se dá ares de grande senhor para com os criados, só vê neles seus servidores; aferra-se ao predicado de ‘servidores’ e não sabe sair daí... A mesma diferença percebemos na milícia. No exército austríaco os soldados podem ser açoitados. Os soldados são pois uma canalha. Razão pela qual o soldado raso é concebido pelo oficial como o expoente abstrato de um sujeito açoitável  com o qual ele, um senhor que veste uniforme e cinge espada, tem de se haver, nem que seja para encomendá-lo ao diabo.”

                               G.W.F.Hegel, Werke, (Tradução: Plínio F. Toledo)