domingo, 3 de março de 2013

Uma tese de Popper: Os Milesianos e a Tradição Crítica

“Os deuses não nos revelaram, desde o princípio todas as coisas, mas, no curso do tempo, procurando, podemos aprender, conhecê-las melhor”...

“Com respeito à verdade segura, ninguém a conheceu, nem a conhecerá, nem a respeito dos deuses nem sobre tudo o que falamos. Mesmo se por acaso pronunciássemos a verdade definitiva, não a reconheceríamos - pois tudo é uma trama de opiniões.”
Xenófanes, DK 18, 34

“Não pertence à natureza do homem possuir o conhecimento verdadeiro, mas à natureza divina...”
Heráclito, DK B78



É lícito afirmar que Tales inaugura, a partir de um novo posicionamento diante da verdade e do dogma, a tradição crítica ocidental? E não apenas ele, mas a filosofia pré-socrática em geral? É possível sustentar, como fez Karl Popper, que Tales e a sua escola representam não só o período inaugural da reflexão cosmológica e de um primeiro distanciamento da mesma em relação ao mito mas, com os milesianos, tem início, de fato, a história do pensamento científico no ocidente, entendida como tradição crítica?
Um exame atento do processo evolutivo das teses acerca da physis no interior da escola milesiana revela-nos, de maneira exemplar, um aspecto essencial da dinâmica do progresso científico; constitui um primeiro modelo do pensamento crítico, isto porque a atitude dos milesianos nos coloca numa posição inteiramente nova com relação à função do dogma no contexto das escolas primitivas. O que isto representa?
A função normal do dogma nas escolas primitivas é, sobretudo, a de preservar uma determinada doutrina e mantê-la pura e intacta, imunizando-a contra a crítica. Isto acontece porque, para essas escolas, a verdade, revelada  em sua inteireza aos escolhidos, encontra-se totalmente contida no corpo da doutrina, da qual estes são os guardiões e transmissores privilegiados. Por isso, tais escolas tornam-se doutrinárias e iniciáticas, inacessíveis ao público, transformando-se em seitas fechadas, tributárias de uma verdade divina por cuja preservação os mestres seriam responsáveis. Tal fechamento seria uma das formas de se preservar incólume o conhecimento acessível apenas aos iniciados. Outra forma seria, obviamente, a expulsão dos hereges, daqueles que tentassem introduzir inovações no corpo do conhecimento ortodoxo. O que se deve acentuar, no entanto, é que estas escolas, de um modo geral, fazem uso sempre de expedientes não argumentativos no intuito de manter a autoridade da palavra revelada e a feição original do dogma. O argumento, se porventura for usado, também será devidamente controlado por dispositivos coercitivos, não racionais, portanto. 
Ora, em um ambiente desses seria totalmente impossível o florescimento de uma tradição científica. Não pelo fato de se valerem de dogmas, mas, fundamentalmente, devido à atitude conservadora e a posição reacionária diante deles. Sendo assim, o aparecimento da especulação científica nas colônias gregas deve ser encarado, forçosamente, como resultado de uma mudança de ambiente, como produto de um novo relacionamento entre discípulo e mestre, e de uma mudança de atitude de ambos com relação ao dogma. Somente a partir da instauração deste novo ambiente teria sido possível o aparecimento na Grécia antiga de uma nova linha de pensamento alicerçada na discussão racional.O novo ambiente ao qual nos referimos resultou de uma profunda transformação; no caso grego tal transformação foi amplamente favorecida por um contexto de crise, vale dizer, a crise da Cidade homérica. 
Nos momentos de crise é que frutificam as novas idéias e impõem-se as tomadas de decisão. A situação crítica torna-se a grande inevitabilidade para o homem grego na medida em que lhe coloca ao mesmo tempo uma dificuldade e a irrecusável necessidade de superá-la. A crisis, a separação, o abismo é também o juízo e a decisão diante da grande aporia. Neste sentido é somente a partir dela que se pode gerar a nova luz. O procedimento socrático não correspondia justamente a um método de induzir crises? O indivíduo após a crise é como uma criança: está apto a receber a verdade nova. Assim também são as civilizações.
Em nossa infância somos mais críticos, mais espantados diante das coisas, mais abertos ao novo, com uma maior capacidade de admiração, portanto. [1] No entanto, quando adultos possuímos certo número de verdades sedimentadas pelo hábito que filtram o mundo que nos rodeia através das lentes de nossos preconceitos e predisposições, fechando assim, irremediavelmente, o nosso campo de visão e a nossa capacidade de admiração. Acreditamos então estar de posse de conhecimentos seguros e cometemos inúmeros equívocos tentando defendê-los. Apegamo-nos demasiadamente aos nossos valores adquiridos, aos conceitos e critérios herdados do meio social, cristalizados na tradição e recusamos o progresso que poderia advir de uma visão crítica. Ficamos assim ancorados aos dogmas até que sobrevenha a crise, diante da qual ou naufragamos completamente em nossas circunstâncias ou reformulamos nossas antigas crenças, agora sob a luz de novos princípios. Não foi justamente este movimento do dogma à crise e da crise à crítica que a cultura européia experimentou durante a passagem da Idade Média à Idade Moderna? Pois foi também no interior da crise que nasceu na civilização grega a nova tradição crítica. Isto porque com a crise a civilização tornou-se novamente criança.
O ocidente oscilou sempre entre períodos dogmáticos e críticos. Neste sentido, a grande mudança de paradigma ocorrida com a ciência moderna a partir de Galileu parece-nos, à luz da história, uma redescoberta da tradição crítica fundada pelos milesianos e que se teria perdido, conforme sustenta Popper, com a doutrina da espiteme de Aristóteles: o conhecimento certo e demonstrável.

A resposta de Mileto representou a resposta da razão frente à tradição. Com os monistas jônicos instaurou-se um novo ambiente no qual a força do argumento sobrepujou a aceitação passiva do dogma. Uma contradição aparente: a atitude grega diante do dogma funda o comportamento crítico que se tornou tradição no ocidente. Desde os milesianos o dogma não é mais um instrumento de preservação de uma doutrina definida e definitiva, mas um ponto de apoio, a base sobre a qual é dado ao pensamento construir-se dialeticamente. O exemplo dos milesianos parece perfeito: por meio do exercício do logos dialético as teorias são submetidas a um processo de suprassunção, mediante o qual algo é abandonado e algo é conservado, as deficiências refutadas e as conquistas positivas elevadas a um nível conceitual superior: a ciência torna-se empreendimento coletivo levado a cabo através do diálogo, do conflito de idéias.
Conforme atesta o fragmento 34 de Xenófanes, os pré-socráticos possuíam a consciência de que nos é impossível alcançar a verdade no contexto intransigente da tradição dogmática e que não podemos, tampouco, captá-la isoladamente. Somente no âmbito da tradição crítica é que as gerações poderiam, umas apoiadas nos ombros das outras, aproximar-se da verdade. Aqui as teorias e os dogmas adquirem um novo sentido e abrem novas perspectivas. Neles devemos nos apoiar, a frase é de Platão, “como numa peça de madeira que flutua, em que devemos navegar pela vida afora arrastando os perigos, até que surja a oportunidade de encontrar alguma coisa mais forte e confiável, menos perigosa”...
Como esclarece John Burnet, “Para os gregos o homem é alguma coisa intermediária entre Deus e os outros animais. Comparado a Deus ele é um homem apenas, sujeito ao erro e à morte.”(...) “É óbvio que, a um ser sujeito ao erro e à morte, a sabedoria é, em amplo sentido, impossível, ou seja, é para Deus apenas. Por outro lado, o homem não se pode contentar, como os ‘outros animais’ em permanecer na ignorância. Se ele não pode ser sábio, ele pode ao menos ser um amante da sabedoria.”[2]

Por ter tido esta visão religiosa do homem como um ser intermediário sujeito ao erro, à imprecisão e ao acaso, embora aspirando ao saber, é que o grego pôde fundar a tradição crítica. Tal tradição alicerça-se na crença de que a verdade deve ser buscada com todo o empenho pelo homem, não obstante, durante a busca, as limitações de sua própria natureza acabam por induzi-lo ao erro. Sem o apoio dos outros homens e sem um critério que o oriente durante a investigação o indivíduo estará inevitavelmente fadado a fracassar. Por isso, foi preciso aos pensadores gregos, desde Tales e os milesianos, irem construindo histórica e intersubjetivamente este instrumento de controle que permite às gerações auxiliarem-se uns aos outros corrigindo, mediante o diálogo, os erros acumulados durante o percurso: a razão.
Anaximandro não aceitou passivamente as idéias de seu mestre, Tales de Mileto. Ao contrário, submeteu-as a uma crítica radical, evidenciando as suas falhas e propondo uma teoria alternativa que não incorresse nos mesmos erros cometidos por Tales. Ele tinha percebido, por exemplo, que se admitíssemos a água como origem e princípio de sustentação de todo o cosmos, seria impossível explicar a geração dos opostos. Também a água como matéria limitada não poderia dar origem à infinidade de mundos, uma vez que se esgotaria durante o processo de geração. Por isso, para Anaximandro, o princípio deveria ser algo ilimitado e indeterminado. Anaxímanes, por sua vez, percebendo os méritos e as falhas no pensamento de seus antecessores, intenta construir um modelo que pudesse ser, ao mesmo tempo, uma superação e uma conservação das teorias de seus mestres. No sistema de Anaximandro, o mecanismo da geração permanecia um mistério; era preciso, portanto, admitir uma substância material determinada, como a de Tales e, ao mesmo tempo, infinita cujas variações quantitativas pudessem produzir as diferenciações qualitativas das coisas. É justamente este o caminho tomado por Anaxímenes e que representa uma síntese entre as posições da Tales e Anaximandro.
Dessa maneira, vemos uma idéia evoluir e se ajustar no intervalo de algumas décadas. E o mais importante, conforme apontou Popper, não há evidência nenhuma nas fontes históricas que pudesse sugerir qualquer ruptura, contenda ou cisma entre os milesianos.
 O embate e a sucessão das teses ocorre em um ambiente em que o mestre parece incentivar a crítica às suas teorias como forma de aproximação à verdade. Uma verdade buscada como empreendimento coletivo. Isto nos leva a supor terem sido os milesianos os fundadores da tradição crítica ocidental, a mola propulsora do progresso científico e da tolerância.
Neste novo ambiente inaugurado pelos milesianos, a verdade torna-se meta a que se chega cooperativamente, pois o diálogo não é uma forma de competição, mas a forma por excelência da cooperação.  Aqui o magister dixit da tradição dogmática é substituído pela máxima bíblica que se tornaria palavra séculos depois: a letra mata e o espírito vivifica.
A compreensão de que a palavra escrita cristaliza e mata a procura que deveria ser dinâmica e intersubjetiva teria levado Platão a manter seus escritos sob uma forma viva, a forma do diálogo, em que as doutrinas são submetidas à discussão e não aceitas passivamente; em que o resultado é sempre a culminância de um esforço plural e não a defesa intransigente de um pressuposto submetido à aceitação de todos. Nos diálogos de Platão vive a personificação máxima da tradição crítica fundada pelos milesianos: Sócrates. 
Os diálogos platônicos nos propõem a busca dialética da verdade submetida ao controle racional do pensamento crítico. Neles a Inteligência aproxima-se da verdade apoiada em suas teorias tomadas como hipóteses, consideradas como dogmas provisórios mediante os quais ela constrói barcos cada vez mais seguros sobre os quais possamos navegar em nossa aventura de descoberta.
É neste sentido que vemos a importância da figura de Tales e os milesianos e, de um modo geral, de toda a filosofia pré-socrática. Quando estudamos os pensadores deste período, temos a sensação de que nos encontramos no centro de um grande debate em que um tema inicial, uma primeira hipótese, é trabalhado intensamente até a exaustão. Uma sinfonia magistral que só termina quando foram exploradas todas as possibilidades do tema. Conforme observou Popper, [3] esse debate, que se instaurou na Grécia a partir da escola de Mileto, anunciou, de certo modo, não apenas o racionalismo ético de Sócrates, mas preparou o terreno em que floresceria, no ocidente, a maneira racional de se buscar a verdade: a tradição crítica - a melhor maneira que conhecemos.

Plínio Fernandes Toledo
   



[1] Platão e Aristóteles afirmaram ser a admiração o impulso fundamental que leva o indivíduo a filosofar.   
[2] Burnet, J. Philosophy, in: “The legacy of Greece”
[3] Cf. Popper, Conjecturas e refutações

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