sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Détour de Piva

Para Luis e Nath

Na hora cósmica do búfalo a palavra de Roberto Piva não liberta nem consola, afunda-se no manancial do desespero que, por ser exatamente desespero, nada pretende, senão ecoar o som de sua própria fúria impotente, como se nela e através dela pisasse o solo do impossível e secasse a lágrima do peixe.
 O Século XX passou como um sonho no qual o sonhador sonhou que sonhava. O despertar prometia uma nova razão para viver, mas o fato se impôs novamente com sua necessidade cega, suas urgências fabricadas, suas formas customizadas, seus acordos e suas trapaças; com a vigência de suas normas, seus parâmetros acríticos e suas forças corporativas, suas cidades embalsamadas, os nós de suas forcas apertando as consciências iludidas, ludibriando a inocência dos ingênuos em tempos que cuidam de manter os fluxos do capital correndo nas veias desgastadas de um mundo sujeito para sempre às forças mercantis da destruição, ao mal que se perpetua invadindo as casas, as casernas e as universidades, ampliando a guerra e condenando o corpo, essa sombra dilacerada de si mesma, a repetir a mímica do vencedor, vendendo-se no mercado do passado, sem nenhum futuro. 
Quem seria capaz de nos condenar se tentarmos a fuga? Se flertarmos com o desespero? Se usarmos nossa última força na construção de uma derradeira astúcia? Se nos escondermos detrás de um muro construído com o material da derrota em nossa Champot imaginária? O que esperar do século XXI, senão a confirmação da profecia? 

2 comentários:

  1. Ainda tentando entender o que eu fiz pra ganhar dedicatória de um texto tão "tapa na cara da sociedade" hahahaha. Muito legal explicar uma crítica tão pesada à esse século de uma forma poética e metafórica. Tive que vir ler de novo (dessa vez com a cabeça mais aberta) pra entender direito e ser capaz de comentar. Mas não espere uma análise profunda ou correta ou de parâmetros acadêmicos hahaha, afinal sou vítima desse tempo. Mas o que eu pude entender foi que isso tudo atenta pra discrepância do século XX pra cá. Foi tudo muito rápido mesmo, e a gente é estimulado a achar que mudou pra melhor, mas no fundo sabe que não é bem assim. Só o que lembro é da minha mãe sentindo saudade da infância dela dos anos 80. E acaba fazendo eu sentir saudade "de tudo que eu ainda não vi" (valeu, Renato). E nem vou ver, enfim. É um pouco desesperador mesmo pensar em como tudo vai estar daqui uns anos...

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  2. De alguma forma todos nós somos vítimas de nosso próprio tempo. Fiquei contente com seu comentário e mai ainda em poder te dedicar essas reflexões poéticas de um principiante.

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