quinta-feira, 3 de abril de 2014

Arabesco

Allegro BWV 998

As dobras divinas no arremate do arabesco
que mistério oculta o intervalo,
os saltos e o continuum em repouso:
voz que se bifurca em veredas-descaminhos
da harmonia cujo campo de possíveis
indefine o acordo entre o belo e o sublime:
sabre que se abate sobre forma e a desafia, mesmo sendo o sentido
dado pelas formulações protocolares de uma linguagem fria,
fraseada pelas progressões e fantasias oscilantes como o fumo
que se enovela nos ares e se espirala e foge e cai como um pesadelo através da doce
caligrafia bachiana.

Não, nenhuma voz que interrompa o silêncio
apenas a mesma cadência modulada pelas variações
dos campos em que se arquiteta o tempo
como dobrar-se acima do sentido
da inteligência que naufraga em sua própria circunstância
e foge e fale e faz fecunda por uma vez a ligação entre os planos:
mesmo que não seja essa a intenção mesmo
que não se pretenda
mesmo que não se atrele o discurso dos sons aos seus motivos;
ainda assim Deus fala através daquilo que é
demasiadamente humano.


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