Qualquer
um que reflita por um momento sobre a conjuntura em que vivemos nos dias atuais
descobrirá que o nosso mundo é totalmente avesso ao patrimônio filosófico.
Vivemos em uma sociedade da imagem que despreza o conteúdo e fixa-se nas
aparências generalizantes e nas formas inertes que não se movem por si, mas
empurradas pelos interesses materiais daqueles que nos querem escravizar. O mundo do espetáculo é também aquele das
sombras e dos simulacros em que o que vale sempre é o que menos se pode dotar
de valor.
Fragmentação,
fuga para o irracional, isolamento e alienação são as realidades que nos
governam enquanto não nos tornamos capazes de nos governar, de romper com as
exterioridades e aparências fugidias e nos apossarmos da verdade que está em
nós mesmos, em nossa capacidade de pensar e agir de forma consciente e plena.
Quem aposta na consciência dá um passo rumo à filosofia e este passo significa
um salto na direção de sua própria emancipação.
A filosofia constitui antes de tudo uma redescoberta
do mundo que começa como um pensar por conta própria. Ernst Bloch disse que quem
pensa por si mesmo não aceita nada como fixo nem definitivo, nem os fatos
amansados nem as generalidades inertes, menos ainda os chavões cheios de odor
cadavérico de nossa caverna pós-moderna. "Mas aquele que aprende de verdade deixa-se
afetar ativamente pela matéria, considera-se capaz de viver sobre a marcha e
romper as cascas das coisas: encontra-se como a sentinela nos postos
fronteiriços da vanguarda. Quem ao aprender comporte-se passivamente limitando
a assentir com a cabeça, logo cairá no sono. Ao contrário, quem esteja na coisa
e marche com ela, por seus caminhos não trilhados, alcança a maioridade e se
encontra enfim em condição de distinguir entre o amigo e o inimigo e de saber
onde a verdade abre caminho.”[1]
É
ainda Bloch quem afirma, “O trote do burro levado pelas rédeas é cômodo, sem
dúvida, mas os conceitos enérgicos são os que correspondem à juventude e à
virilidade.”[2]
Nós
que nos perdemos nas contradições do relativismo, que escolhemos a trilha mais
fácil e nos desorientamos na selva dos estímulos que apelam aos nossos desejos
mesquinhos sem nos oferecer o mapa que nos conduza para fora do labirinto,
devemos arriscar algo que a maioria recusa-se a experimentar. Tentar encontrar
a saída por nós mesmos, dispondo de nossos próprios recursos. Para isso
necessitamos nos apoiar em uma tradição de pensadores críticos que diagnosticaram
a nossa miséria, sem, no entanto, terem conseguido eles mesmos superá-la. Devemos
apelar para a tradição dos fracassados. Fazer um pouco de filosofia marginal.
Ser
é fazer-se e o humano é aquele que se faz ao se construir constantemente como
tal. No caminho do conhecimento, da liberdade e da realização pessoal a
filosofia crítica e os filósofos radicais, aqueles que tomam as coisas pela
raiz - e, segundo Marx, a raiz do homem é o próprio homem - nos fornecerão a
bússola que norteará nosso caminhar. Não caminharão por nós, mas nos forçarão a
fazê-lo por nós mesmos. Só assim podem nos ajudar, porque somente desta forma
querem nos orientar: servindo de exemplo e guia
no trajeto de nossa autoconstrução.
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