quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Logos de Heráclito



“Este Logos, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este Logos, parecem não ter experiência experimentando-se em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo e explicando a natureza de cada coisa. Os outros homens  ignoram o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem durante o sono.” Heráclito
  
O fragmento 1 era evidentemente o proêmio da obra de Heráclito e nele, como era costume nos tratados da época, começa-se por falar da própria obra, denominada, também, habitualmente Logos, ou seja, algo assim como coisa que se diz, relato, discurso. O problema é que Logos é para Heráclito muito mais que isso; é um conceito crucial de sua própria interpretação do mundo. Além de ser o discurso de Heráclito que, como tal, pode ser ouvido por seus ouvintes- e, ao que parece, não compreendido- é a linguagem mesma, pelo que é amiúde qualificada por seu autor de comum. Porém há mais: Heráclito herda  outra antiga acepção do termo que em grego valia como proporção e, na boca do filósofo, chega a constituir-se em um tipo de princípio, padrão ou norma  universal , uma espécie de estrutura de acordo com a qual ( e segundo cujas proporções ) acontecem todas as coisas no mundo. Um padrão de natureza dialética.
Logos é, portanto, uma explicação lingüística e, ao mesmo tempo, uma entidade real, dentro da unidade própria do pensamento arcaico, entre o homem e a coisa. Daí a tradução Razão, que em português reflete palidamente o logos original, porém ainda conserva em nossa língua essa tripla conotação lingüística, aritmética e lógica. ( Garcia Calvo assinala que em espanhol o termo razão guarda a mesma tripla conotação )

Marcovich agrupa dois fragmentos ( 23-24 ) sobre a base de que se trata de inferências acerca do caráter comum, isto é, da validez universal da razão, que interpreta como estendida a quatro planos:
a) o lógico- a razão é operante em todas as coisas ( fr. 23, cf. o 1 );

b) o ontológico- segundo o qual a razão é um  substrato unificador sob a pluralidade de manifestações das coisas, quer dizer, constitui a unidade do mundo;

c) o gnosiológico- segundo o qual a compreensão da razão é condição imprescindível para a correta  compreensão do mundo;


d) o ético- a razão é também um guia para a conduta diária.

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