quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Uma palavra sobre a Physis

Em sentido geral, o termo grego physis designa, no contexto da filosofia pré-socrática, a Natureza, entendida não só como a totalidade do mundo físico imediatamente apreensível aos sentidos, mas, especificamente, como o fundo primordial de onde dimanam todos os componentes do cosmos, sobre cuja base estes componentes se sustentam e ao qual retornam após terem cumprido o ciclo de suas existências. 
Além de significar a Natureza tal como é comumente entendida, a palavra physis abarca também, segundo o que assevera Werner Jaeger, “o fundo originário das coisas, aquilo a partir do qual se desenvolvem e pelo qual se renova constantemente o seu desenvolvimento; em outras palavras, a realidade subjacente às coisas da nossa experiência.”[1] (grifos meus)  John Burnet, por sua vez, afirma que “na língua filosófica grega, Physis designa sempre o que é primário, fundamental e persistente em oposição ao que é secundário, derivado e transitório.”[2] (grifos meus)
Como é possível depreender do significado filosófico do termo physis, a filosofia nasce e começa a se desenvolver na Grécia a partir de um novo posicionamento do homem diante do mundo. Conforme observou Garcia Morente,
O primeiro esforço filosófico do homem foi feito pelos gregos e começou sendo um esforço para discernir entre aquilo que tem uma existência meramente aparente e aquilo que tem uma existência real, uma existência em si, uma existência primordial, irredutível a outra. (...) Estes filósofos gregos procuram qual é ou quais são as coisas que têm uma existência em si. Eles chamavam a isto o ‘princípio’, nos dois sentidos da palavra: como começo e como fundamento de todas as coisas.[3]  

A physis é este “princípio”, este começo e fundamento a que se refere Garcia Morente. Desta forma, podemos afirmar que se a consciência mítica do homem primitivo operava mediante um embaralhamento espontâneo da realidade cotidiana com a sobre-realidade sacramental, embaralhamento este resultante de uma inserção mais ou menos completa da existência humana na paisagem natural, a consciência filosófica, em sua configuração primeira, já executa a dissociação, a distinção entre dois planos distintos de realidade: ela começa desde então por distinguir entre uma existência meramente contingente daquilo que é necessário e fundamental, entre as coisas que aparecem e o princípio ou fundamento que lhes confere existência e significado.
No contexto do teísmo dos pré-socráticos, physis significa a substância física primordial, o princípio ou arché, da qual eram feitas as coisas e o processo de crescimento destas mesmas coisas. Esta substância era viva, daí divina e, logo, imortal e indestrutível.
Assim, a physis dos primeiros filósofos tinha movimento e vida, mas com a remoção enfática, feita por Parmênides, da Kinésis  do reino do ser, a noção de physis foi, de fato, destruída, passando a iniciação do movimento para agentes exteriores, v.g. o “Amor” e o “Ódio” de Empédocles (cf. Diels, frg. 318 A 28) e o Nous de Anaxágoras.
É neste sentido que se pode afirmar dos milesianos que eles representam o exemplo mais característico dos fisiólogos, daqueles que orientaram a sua pesquisa no sentido de determinar o princípio material imanente ao cosmos.




[1] Jaeger, Werner, La Teologia de los primeros Filosofos griegos, México, F.C.E., 1952, pág. 26.
[2] Burnet, John, L’aurore de la philosophie grecque, Paris, Payot, 1952, pág. 26.
[3] Morente, M.G., Lições preliminares de filosofia, São Paulo, Mestre Jou, pp. 68/69.

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