Em sentido geral, o termo
grego physis designa, no contexto da
filosofia pré-socrática, a Natureza, entendida não só como a totalidade do
mundo físico imediatamente apreensível aos sentidos, mas, especificamente, como
o fundo primordial de onde dimanam
todos os componentes do cosmos, sobre cuja base estes componentes se sustentam
e ao qual retornam após terem cumprido o ciclo de suas existências.
Além de significar a
Natureza tal como é comumente entendida, a palavra physis abarca também,
segundo o que assevera Werner Jaeger, “o fundo originário das coisas, aquilo a
partir do qual se desenvolvem e pelo qual se renova constantemente o seu
desenvolvimento; em outras palavras, a
realidade subjacente às coisas da nossa experiência.”[1]
(grifos meus) John Burnet, por sua vez,
afirma que “na língua filosófica grega, Physis designa sempre o que é primário, fundamental e persistente em
oposição ao que é secundário, derivado e transitório.”[2]
(grifos meus)
Como é possível
depreender do significado filosófico do termo physis, a filosofia nasce e começa a se desenvolver na Grécia a
partir de um novo posicionamento do homem diante do mundo. Conforme observou
Garcia Morente,
O primeiro esforço filosófico do homem
foi feito pelos gregos e começou sendo um esforço para discernir entre aquilo
que tem uma existência meramente aparente e aquilo que tem uma existência real,
uma existência em si, uma existência primordial, irredutível a outra. (...)
Estes filósofos gregos procuram qual é ou quais são as coisas que têm uma
existência em si. Eles chamavam a isto o ‘princípio’, nos dois sentidos da
palavra: como começo e como fundamento de todas as coisas.[3]
A physis é este
“princípio”, este começo e fundamento a que se refere Garcia Morente. Desta
forma, podemos afirmar que se a consciência mítica do homem primitivo operava
mediante um embaralhamento espontâneo da realidade cotidiana com a
sobre-realidade sacramental, embaralhamento este resultante de uma inserção
mais ou menos completa da existência humana na paisagem natural, a consciência
filosófica, em sua configuração primeira, já executa a dissociação, a distinção
entre dois planos distintos de realidade: ela começa desde então por distinguir
entre uma existência meramente contingente daquilo que é necessário e
fundamental, entre as coisas que aparecem e o princípio ou fundamento que lhes confere
existência e significado.
No contexto do teísmo dos
pré-socráticos, physis significa a
substância física primordial, o princípio ou arché, da qual eram feitas as coisas e o processo de crescimento
destas mesmas coisas. Esta substância era viva, daí divina e, logo, imortal e
indestrutível.
Assim, a physis dos primeiros filósofos tinha
movimento e vida, mas com a remoção enfática, feita por Parmênides, da Kinésis
do reino do ser, a noção de physis foi, de fato, destruída, passando
a iniciação do movimento para agentes exteriores, v.g. o “Amor” e o “Ódio” de
Empédocles (cf. Diels, frg. 318 A 28) e o Nous
de Anaxágoras.
É neste sentido que se
pode afirmar dos milesianos que eles representam o exemplo mais característico
dos fisiólogos, daqueles que orientaram a sua pesquisa no sentido de determinar
o princípio material imanente ao cosmos.
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