segunda-feira, 31 de outubro de 2016

DISCURSO SOBRE A DIGNIDADE HUMANA


      
   Finalmente, pareceu-me ter compreendido por que razão é o homem o mais feliz de todos os seres animados e digno, por isso, de toda a admiração, e qual enfim a condição que lhe coube em sorte na ordem universal, invejável não só pelas bestas, mas também pelos astros e até pelos espíritos supra-mundanos. Coisa inacreditável e maravilhosa. E como não? Já que precisamente por isso o homem é dito e considerado justamente um grande milagre e um ser animado, sem dúvida digno de ser admirado.
         Mas, escutai, ó Padres, qual é essa condição de grandeza e, com vossa liberalidade, prestai um ouvido benigno e tolerante a este meu discurso.
         Já o sumo Pai, Deus arquitecto, tinha construído segundo leis de arcana sabedoria este lugar do mundo como nós o vemos, augustíssimo templo da divindade. Tinha embelezado a zona super-celeste com inteligências, avivado os globos etéreos com almas eternas, povoado com uma multidão de animais de toda a espécie as partes vis e fermentantes do mundo inferior. Mas, consumada a obra, o Artífice desejava que houvesse alguém capaz de compreender a razão de uma obra tão grande, que amasse a beleza e admirasse a sua grandeza. Por isso, uma vez tudo realizado, como Moisés e Timeu atestam, pensou por último criar o homem. Dos arquétipos, contudo, não ficara nenhum sobre o qual modelar a nova criatura, nem dos tesouros tinha algum para oferecer em herança ao novo filho, nem dos lugares de todo o mundo restara algum no qual se sentasse este contemplador do universo. Tudo estava já ocupado, tudo tinha sido distribuído nos sumos, nos médios e nos ínfimos graus. Mas não teria sido digno da paterna potência não se superar, como se fosse inábil, na sua última obra, não era próprio da sua sapiência permanecer incerta numa obra necessária, por falta de decisão, nem seria digno do seu benéfico amor que quem estava destinado a louvar nos outros a liberalidade divina, fosse constrangido a lamentá-la em si mesmo.
         Estabeleceu, portanto, o ótimo artífice que, àquele a quem nada de especificamente próprio podia conceder, fosse comum tudo o que tinha sido dado parcelarmente aos outros. Assim, tomou o homem como obra da natureza indefinida e, colocando-o no meio do mundo, falou-lhe deste modo: “Ó Adão, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão.A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei. Coloquei-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo”.
         Ó suma liberalidade de Deus pai, ó suma e admirável felicidade do homem! ao qual é concedido obter o que deseja, ser aquilo que quer. As bestas, no momento em que nascem, trazem consigo do ventre materno, como diz Lucílio, tudo aquilo que depois terão. Os espíritos superiores ou desde o princípio, ou pouco depois, foram o que serão eternamente. Ao homem nascente o Pai conferiu sementes de toda a espécie e germes de toda a vida, e segundo a maneira de cada um os cultivar assim estes nele crescerão e darão os seus frutos. Se vegetais, tornar-se-á planta. Se sensíveis, será besta. Se racionais, elevar-se-á a animal celeste. Se intelectuais, será anjo e filho de Deus, e se, não contente com a sorte de nenhuma criatura, se recolher no centro da sua unidade, tornado espírito uno com Deus, na solitária caligem do Pai, aquele que foi posto sobre todas as coisas estará sobre todas as coisas.

Giovanni Pico della Mirandola


quinta-feira, 28 de maio de 2015

Educação e autoridade

“O filósofo não é alguém que canta, de alguma maneira é alguém que grita.”
                                                                                        Gilles Deleuze
                                                                                             
                    “a politician is an arse upon
                     wich everyone has sat except a man”
                                                         e.e.cummings

Proudhon disse que, em uma determinada sociedade, a autoridade do homem sobre o homem é inversamente proporcional ao estágio de desenvolvimento intelectual que aquela sociedade atingiu. Os anarquistas da extinta, ou suicidada pela sociedade, U.P.P.R sentenciaram, em uma alusão ao evangelho de São João, que não saber é uma forma de ser escravo. Tanto a equação de Proudhon como a máxima dos anarquistas paulistas, podem nos servir de ponto de apoio a uma avaliação da atual crise educacional de que padecemos e sua ligação evidente com os interesses do poder político.
Há muito acreditamos que a maioria de nossas mazelas, econômicas ou sociais, reproduzem-se e se propagam, ameaçando a todos soterrar sob os escombros das desigualdades e injustiças, às custas da falta de educação generalizada de nosso povo. Não seria incorreto afirmar que não existe educação no nosso país, a não ser nas fórmulas institucionais e leis governamentais que, no entanto, tolhem por completo qualquer esperança de uma verdadeira reforma educacional que sirva de apoio à uma retomada do crescimento intelectual no Brasil. Se é que alguma vez tivemos qualquer sinal de crescimento intelectual, a não ser em casos isolados e raras exceções, o que apenas confirma a regra. Há, não obstante, uma desconfiança que as propagandas governamentais não conseguem extirpar, muito embora tentem mostrar o quanto o estado tem feito pela educação, o quanto ele se empenha em melhorá-la. Ora, um estado que se pinta de estado democrático sem, no entanto, confiar à opinião pública qualquer participação ativa nas decisões que mais lhe tocam, privatizando os lucros e socializando as perdas, não pode evidentemente conviver com uma população educada que tenha conquistado, mediante a cultura e a autoconsciência, o estatuto da cidadania. O que fazer então? Tratar de forjar uma aparência enganadora, um véu ideológico que nos mantenha presos às cadeias da ilusão. Exibir a todos um empenho que não se realiza, uma ação que não gera bons frutos, uma preocupação hipócrita que não se evidencia. Em outras palavras: fazer da educação uma bandeira e uma prioridade sem, no entanto, nada fazer pela educação. Dizer que se faz o que efetivamente não se faz, mostrar uma preocupação que não se tem, contabilizar um dinheiro que não se gasta. Ora, como um estado que sobrevive de ilusões e de hipocrisias pode investir justamente na maior inimiga das ilusões e das hipocrisias? Como um estado que vive da falsificação e da mentira pode querer estimular a educação, algo que produz justamente o contrário da falsificação e da mentira? Simples: criando um falso modelo de educação, forjando uma educação falsificada. Fomentando a ignorância disfarçada de esclarecimento. Uma boa forma de se manter um mau governo.
A falta de educação é um dos principais polos que garantem o equilíbrio relativo de um governo injusto e incapaz que, ao invés de se afirmar pelas realizações em favor de quem realmente delas necessita, se fortalece ao assegurar e perpetuar a ignorância de quem vota. Assim, o poder público brasileiro trata de fazer do político um jogo em que vale a habilidade e a capacidade de logro de quem joga e não de que lado está a verdade. Uma política maquiavélica que não cumpre sua justa função, pelo menos o que se esperaria daqueles que tratam das questões comuns, que deveriam ser a busca metódica da verdade e de um governo em concordância com os princípios advindos dessa busca. Algo que se fazia num tempo em que o político ainda não se desvencilhara do ético e a política era uma ciência e não uma estratégia.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A MACEDÔNIO


As coisas não começam
 - É o que digo -
A quem acredita em futuros e coisas passadas;
Ou pelo menos não começam quando são inventadas
O mundo já foi inventado antigo.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Lançamento

Meu novo livro intitulado "A Imagem e o Conceito: ensaios sobre a linguagem da filosofia a a arte", em que procuro resolver questões fundamentais acerca da relação entre a atividade filosófica e a poética, aproximando razão e imaginação, lógica e invenção, mediadas pela intervenção crítica da dialética, fornece uma introdução original ao pensamento de Nietzsche, Deleuze e Adorno que, tenho certeza, será muito útil àqueles que se interessam pela a filosofia.
O livro consiste em uma série de ensaios, arranjados em um quadro dinâmico no qual o conceito e a imagem dialogam através do exame dialógico dos vários sistemas que deles se apropriaram em vários tempos e lugares. Convido o leitor a adquirir o livro que pode ser comprado pela Amazon em suas duas versões, tradicional e eletrônica. Abaixo os links para quem se interessar em adquiri-los:





















LINKS:

Livro:

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Nós

Nós os negros antifascistas,
antilimitesdefinidospelaonipotênciadopoder
ainda teremos muito a fazer
quando o tempo entoar seu chamado de desesperança
 e desassossego
pelos atributos humanos deixados no canto da história;
sem nenhuma esperança, sem nenhum medo
nossos deuses vencidos pela miséria
da consciência ocidental, que bem soube se
aproveitar das armas, da mentira, da violência e do chicote,
em nossas costas lavradas a sal na escuridão do congo,
deverão enfim nos socorrer
quando vier o tempo da chuva e a água
molhar novamente os campos e secar a solidão
de nossa angústia ancestral.
Somente então deveremos nos reconhecer em todos
os olhares, nos encontrar em todos os braços,
nos orgulhar da força de nossa têmpera e, assim,
deixar no canto de nossa felicidade irreal
o calor do corpo que irá acolher todos os
órfãos que, como nós, ainda estão sem lugar
na terra.

(J. Guedes/Trad. Plinio)


sábado, 4 de outubro de 2014

O SEGUNDO ADVENTO



William B. Yeats
(Tradução PlinioF. Toledo)

Girando e girando no amplo turbilhão
Não pode o falcão ouvir o falcoeiro;
Coisas se desfazem; o centro não mais se sustenta;
A mera anarquia impera sobre o mundo,
A vaga de escuro sangue é solta e por toda parte
Afoga-se a cerimônia de inocência;
O melhor perde toda a sua convicção enquanto o pior
Está cheio de intensidade apaixonada.

É claro que alguma revelação está disponível;
É claro que o Segundo Advento está próximo.
O Segundo Advento! Dificilmente são ditas as palavras
Quando a vasta imagem do Spiritus Mundi
Nubla minha visão: algo nas areias do deserto,
Uma forma com o corpo de leão e cabeça humana,
Uma oca e impiedosa mirada como o sol,
Move os seus membros lentos enquanto tudo
Oscila sombras sobre coléricos pássaros desolados.
A escuridão goteja novamente, mas agora eu sei
Que o pesadelo de vinte séculos de pétreo sono
Foi conturbado pelo balanço de um berço.
E que besta brutal, chegando ao fim de sua festa,
Rasteja até Belém para nascer?

  

Oração a um caipira devoto de Nhá Chica.

(Um comentário sobre a gênese do comentário à Milonga pra Adão Ventura, e a grande dúvida suscitada por tudo isso.)


Então foi desse modo que a coisa veio a mim, simples pecador: depois de ler o poema, comecei a escrever o texto, por uma necessidade irresistível, o qual me chegou todo despedaçado e sujo de terra, e eu não tinha em princípio a menor idéia do resultado final, que pôde ter sido muito bem uma questão de sorte. Mas percebi que nessa reunião de pedaços havia uma coisa diferente, um pensamento, ou seja lá o que for, em seu sentido mais puro...e genuíno. Por isso achei que deveria lho enviar.
            O mais curioso foi que, durante o trabalho de composição (extremamente difícil para mim), cheguei num ponto em que pensei que nada mais pudesse ser acrescentado. Então, subitamente, como um raio, caiu-me a metáfora do caminho. E quando a metáfora caiu, unificando tudo o que havia sido escrito e pensado, eu até olhei pra cima para ver quem é que a tinha lançado.
            Essa fulminação – que trouxe à tona um conteúdo, cuja forma de expressão pode ser variável – despertou em mim uma dúvida, que agora é a grande dúvida da minha vida e o centro em torno do qual giram todas as outras. É sobre a frase de Heráclito: “A Polimatia não instrui a inteligência”.
            Deslocada para o mundo de hoje e traduzida em nossa linguagem ela talvez assim se traduza: “Qual é a importância do conhecimento enciclopédico (livresco) para as nossas vidas?” De outra forma: “De que modo devemos conduzir a nossa educação: pela leitura incansável de muitas fontes esparsas ou apenas de umas poucas ou mesmo de uma fonte única?”  “A leitura de muitos livros de muitos autores, que nos coloca em contato com uma variedade imensa de conceitos e esquemas doutrinais, não é um agente facilitador da expressão do nosso próprio pensamento?”[A Polimatia não tornaria mais fácil o exercício da inteligência?] “Ou então devemos, ao modo dos pescadores, lançar nossas redes tanto nos mares da Poesia quanto da Filosofia, a fim de que o pensamento se revele por duas formas alternativas?”
            Qual o significado da educação? É a providência de meios ou caminhos para expressar ou despertar tais conteúdos? Qual a melhor maneira de trazê-los à tona?
            Relendo a Milonga, descobri em dois outros versos o mesmo espírito puro, em seu estado original, mas não sei se poderei escrever algo a respeito, nem se a sorte haverá de me ajudar.

            Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Aristóteles e a ciência do bem comum

Na mesma esteira de Platão, Aristóteles pensa a administração social como ciência política, um conhecimento metodicamente ordenado e extraído da organização efetiva do ser social, que funcione como reflexão sobre os meios e que conduza enfim à realização autoconsciente do bem comum. De fato, Aristóteles classifica a política como uma das ciências práticas, ao lado da ética, e na Ética a Nicômaco trata das duas como disciplinas organicamente articuladas, ligadas a um mesmo campo de interesses, vale dizer, como ciências que buscam estabelecer princípios normativos que pudessem regular a vida social dos homens, sua existência comum no interior de uma sociedade justa. A política e a ética foram tratadas por Aristóteles como ciências do social, não como instrumentos de poder, mas como meios eficazes para a administração da justiça e a busca da felicidade, individual e coletiva. Um trecho da Ética a Nicômaco esclarece:

Se há, então, para as ações que praticamos, alguma finalidade que desejamos por si mesma, sendo tudo mais desejado por causa dela, e se não escolhemos tudo por causa de algo mais (se fosse assim, o processo prosseguiria até o infinito, de tal forma que nosso desejo seria vazio e vão), evidentemente tal finalidade deve ser o bem e o melhor dos bens. Não terá então uma grande influência sobre a vida o conhecimento deste bem? Não deveremos, como arqueiros que visam a um alvo, ter maiores probabilidades de atingir assim o que nos é mais conveniente? Sendo assim, cumpre-nos tentar determinar, mesmo sumariamente, o que é este bem, e de que ciências ou atividades ele é objeto. Aparentemente ele é objeto da ciência mais imperativa e predominante sobre tudo. Parece que ela é a ciência política, pois esta determina quais são as demais ciências que devem ser estudadas em uma cidade(...). Uma vez que a ciência política usa as ciências restantes e, mais ainda, legisla sobre o que devemos fazer e sobre aquilo de que devemos abster-nos, a finalidade desta ciência inclui necessariamente a finalidade das outras, e então esta finalidade deve ser o bem do homem.

Articulação entre o bem individual e o bem político, vale dizer, coletivo:"Ainda que a finalidade seja a mesma para um homem isoladamente e para uma cidade, a finalidade da cidade parece de qualquer modo algo maior e mais completo, seja para a atingirmos, seja para a perseguirmos."

E aqui uma lição modelar e, ao mesmo tempo, a definição da ciência política em função de seu objetivo superior:

Embora seja desejável atingir a finalidade apenas para um único homem, é mais nobre e mais divino atingi-la para uma nação ou para as cidades. Sendo este o objetivo de nossa investigação (i.e., a ética), tal investigação é de certo modo o estudo da ciência política (uma vez que dele depende também a consecução do bem coletivo).[1]

A plena realização do homem, sua maior felicidade, portanto, só pode se dar no contexto da polis, uma vez que ele se caracteriza essencialmente como ser social. Os dois tipos de felicidade perseguidas pelo homem são, de fato, um só sob diferentes denominações.




[1] Aristóteles, Ética a Nicômaco, parágrafo 2

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Platão e o modelo ideal para a cidade



Platão foi acusado muitas vezes de ser o idealizador de um sistema aristocrático e autoritário de administração da cidade. Entendendo a cidade justa como um organismo vivo, Platão esforçou-se para descrever a sua gênese e não a sua história, tomando como referência um modelo dela elaborado como uma construção geométrica.
Tentou-se ver aqui uma utopia, em particular na imagem que nos é dada da classe dos guardiões, em que não se leva em conta a diferença dos sexos, as crianças pertencem ao Estado, os casamentos são de curta duração e organizados para o eugenismo, os guardiões não tocam nas riquezas da cidade etc. Esse modelo de tipo autoritário, observa Abel Jeannière, a partir do qual se falou do ‘comunismo’ de Platão, foi muitas vezes descrito e criticado. No entanto, mais do que uma utopia ou sonho de uma cidade perfeita, trata-se, na concepção platônica, de um modelo lógico - construído da mesma forma que as teorias matemáticas - que Platão sabe perfeitamente inaplicável, mas que pode servir de referência na crítica e no estabelecimento de regimes reais de administração da cidade.
Observemos aqui que Platão não trata da administração particularizada de um certo domínio da sociedade exemplificado numa organização privada, numa empresa, mas da sociedade entendida em sua natureza específica como o conjunto de todas as relações que envolvem a vida do homem dentro da comunidade a qual ele pertence. Para a análise desta realidade serve-se de um modelo lógico implacável que, embora aplicado ao todo, serve também como parâmetro à construção de modelos de análise e pontos de referência construtivos relativos a setores particulares da sociedade.
Mediante o modelo, o “paradigma no céu”, Platão nos faz ver que todo problema político, e logo filosófico, radica-se na incapacidade demonstrada pelos homens de organizar uma cidade viva tão perfeita quanto o cosmo construído pelo demiurgo.

A referência a um modelo lógico apresenta muitas vantagens e certamente deveria inspirar os pensadores políticos daí em diante. A mais importante, segundo Abel Jeannière, é, certamente, que tal modelo permite orientar melhor a educação para a justiça, na alma e na cidade. Mas não apenas isso: torna possível acima de tudo a elaboração de um paradigma que serve de referência à construção de uma forma real de organização que pode ser medida em sua adequação ao modelo teórico matematicamente elaborado. A exatidão do modelo matemático serve de referência à elaboração efetiva da ordem, realçando ao mesmo tempo suas deficiências e auxiliando o guardião na elaboração de diagnósticos visando a saná-la. E aqui tocamos na segunda vantagem do procedimento platônico: a referência ao modelo ideal permite julgar concretamente as organizações e regimes já existentes.
O julgamento, no entanto, dentro da perspectiva do pensamento clássico, contextualizado sempre em referência a polis, deve conduzir à clareza necessária à defesa e construção prática de um organismo real que possa servir de meio à consecução da vida feliz, ou da justiça, que exige felicidade para todos.

A  solução platônica instaura, portanto, um tipo de concepção orgânica do social em conformidade com a qual cada indivíduo tem a sua parcela de doação e realização dialeticamente referida ao todo, em função sempre da saúde do todo. 

sábado, 23 de agosto de 2014

Aristóteles: sobre a substância



“Substância, na acepção mais fundamental, primeira e principal do termo, diz-se daquilo que nunca se predica de um sujeito, nem em um sujeito (sentido lógico), por exemplo, este homem ou este cavalo. No entanto, podemos falar de substâncias segundas, espécies em que se incluem as substâncias primeiras, e nas quais, se são gêneros, ficam contidas as mesmas espécies. Por exemplo: o homem individual inclui-se na espécie denominada homem, e, por sua vez, incluímos essa espécie no gênero chamado animal. Designamos de segundas estas últimas substâncias, isto é, o homem e o animal, ou seja, a espécie e o gênero.”

“Quanto ao mais, ou bem se diz das substâncias primeiras, ou bem que se acha nelas como em seu sujeito”.

“De modo que todas as coisas, sejam elas quais forem, exceção feita às substâncias primeiras, ou são predicados das substâncias primeiras, ou então acham-se nelas na acepção de sujeitos. E não havendo estas substâncias primeiras, não haveria nenhuma das outras substâncias.”

“Entre as substâncias segundas, a espécie é mais substância do que o gênero, por estar mais próxima da substância primeira, enquanto o gênero se acha mais longe dela. Se alguém nos perguntar ‘o que é isto’, indicando ma substância primeira, a resposta mais didática consistirá em mencionar a espécie em vez do gênero, por exemplo: tomemos este ou aquele homem determinado. Daremos uma resposta mais explicativa acerca dele se determinarmos a espécie, homem, do que se dissermos animal, porque o primeiro caráter é mais próprio ao homem individual, enquanto o segundo é mais geral ou mais longínquo. (o indivíduo é mais homem que animal) De igual modo, para tornar compreensível a natureza desta ou daquela árvore, a explicação será mais instrutiva se dissermos que é uma árvore, do que se dissermos que é um vegetal”.

“Além disso, as substâncias primeiras, pelo fato de serem subjacentes a todas as outras, as quais, por sua vez, ou serão predicados, ou estarão nelas como em seu sujeito, são, por isso, substâncias por excelência. (...) Então é lícito concluir que a espécie é mais substância do que o gênero.

“Quanto às espécies, nenhuma, a menos que seja também um gênero, é mais substância do que outra, pois não é mais apropriado chamar homem a um dado homem do que chamar cavalo a um dado cavalo. Esta regra vale também para as substâncias primeiras, pois nenhuma substância é mais substância do que outra, já que um determinado homem não é mais substância do que este ou aquele boi.

“É, por conseguinte, com razão que, depois das substâncias primeiras, entre todas as demais, só a espécie e o gênero são nomeáveis substâncias segundas, porque entre todas as categorias possíveis, só elas definem a substância primeira. O homem determinado é definível de uma forma mais própria através da espécie, homem, do que através do gênero, animal. Em contrapartida, aplicar ao homem qualquer outra categoria, seria tornar a explicação imprópria, como, por exemplo, se dissermos que ele é branco, ou que ele corre, ou predicados análogos (acidentais). Assim, é evidente que só a espécie e o gênero se denominam substâncias segundas, fora das substâncias primeiras.”


[Trechos extraídos das “Categorias”, primeiro livro do Organon de Aristóteles]












Sentido moderno do termo “ideia”




A atividade própria do filósofo e o conceito:

“Leibniz é um dos filósofos que nos faz compreender da melhor maneira possível a resposta a esta pergunta: ‘o que é a filosofia?’. ‘O que faz um filósofo?’. ‘De que se ocupa?’

Se pensamos que as definições que buscam o verdadeiro, ou que buscam a sabedoria não são adequadas, haverá pois uma atividade filosófica? Quisera dizer, muito rapidamente, como reconheço um filósofo em sua atividade. Não podemos confrontar as atividades mais que em função do que elas criam e de seu modo de criação. Basta perguntar: que é o que o carpinteiro cria? O que é o que um músico cria?  O que cria um filósofo? Um filósofo é, para mim, alguém que cria conceitos. Isto envolve muitas coisas: que o conceito seja algo por criar, que o conceito seja o término de uma criação.

Eu não vejo nenhuma possibilidade de definir a ciência se não se indica algo que é criado por e na ciência. Agora bem, encontra-se que o que é criado por e na ciência, eu não sei bem dizer o que é, porém não são conceitos propriamente falando. O conceito de criação tem sido vinculado muito mais à arte que à ciência ou à filosofia.  Que é o que cria um pintor? Cria linhas e cores. Isso implica que as linhas e as cores não estão dadas, são o término de uma criação. No limite, o que está dado pode sempre ser chamado de fluxo. Os que estão dados são os fluxos, e a criação consiste em recortar, organizar, conectar os fluxos, de tal maneira que se desenhe ou se realize uma criação ao redor de algumas singularidades extraídas dos fluxos.
Um conceito (ou ideia), não é algo que está dado. Ainda mais, um conceito não é o mesmo que o pensamento: pode-se muito bem pensar sem conceitos e, inclusive, todos aqueles que não fazem filosofia, eu creio que eles pensam, que eles pensam plenamente, porém que não pensam por conceitos, se aceitamos a ideia de que o conceito seja o término de uma atividade ou de uma criação original. (Observem que para Deleuze o conceito é alcançado ao fim de uma atividade, como para Platão, à qual este chamou “Segunda navegação”, no entanto tal atividade distingue-se para Deleuze como atividade produtora, criadora e, para Platão, como atividade captadora)

Eu diria que o conceito é um sistema de singularidades extraídas de um fluxo de pensamento. Um filósofo é alguém que fabrica conceitos."                                                                                                           Gilles Deleuze, Curso de terça feira -Leibniz (15/04/1980),                             
Tradução: Plínio F. Toledo.




quinta-feira, 3 de abril de 2014

Teseu e Ariadne
                                   
                           “Oh, Ariadne, tu mesma és o labirinto,
                                                                     de ti jamais se consegue sair”.
                                                                                                     Nietzsche

Sob uma sombra em Cnossos
Curva-se um corpo, cai ao solo
Súbita, a treva e o barulho dos ossos
Mas Ariadne enrosca um novelo.

Trava, trama do tempo, tomba
Sobre a poeira do chão a sombra
Que um fio acende  e conduz
Vivo  herói ao encontro da luz.

Livre Teseu na ilha de Creta
Olhar como o mar, infinito;
Que finda no ar e do azul inventa

O outro fio que atrela o muito
Se amar ao amor faminto:
Infinitamente atado ao labirinto.


Arabesco

Allegro BWV 998

As dobras divinas no arremate do arabesco
que mistério oculta o intervalo,
os saltos e o continuum em repouso:
voz que se bifurca em veredas-descaminhos
da harmonia cujo campo de possíveis
indefine o acordo entre o belo e o sublime:
sabre que se abate sobre forma e a desafia, mesmo sendo o sentido
dado pelas formulações protocolares de uma linguagem fria,
fraseada pelas progressões e fantasias oscilantes como o fumo
que se enovela nos ares e se espirala e foge e cai como um pesadelo através da doce
caligrafia bachiana.

Não, nenhuma voz que interrompa o silêncio
apenas a mesma cadência modulada pelas variações
dos campos em que se arquiteta o tempo
como dobrar-se acima do sentido
da inteligência que naufraga em sua própria circunstância
e foge e fale e faz fecunda por uma vez a ligação entre os planos:
mesmo que não seja essa a intenção mesmo
que não se pretenda
mesmo que não se atrele o discurso dos sons aos seus motivos;
ainda assim Deus fala através daquilo que é
demasiadamente humano.


domingo, 30 de março de 2014

Pêndulo

Para João Sebastião Ribeiro

O peso do pêndulo
Ritmando o tempo
Relata o tormento
De ter sido nulo
O pulo no escuro
Do parco futuro
De ter sido nada
Vagar nessa estrada
Lavrar esse chão
Mas tem sido tudo
Pulsando no fundo
Da tua canção.



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Détour de Piva

Para Luis e Nath

Na hora cósmica do búfalo a palavra de Roberto Piva não liberta nem consola, afunda-se no manancial do desespero que, por ser exatamente desespero, nada pretende, senão ecoar o som de sua própria fúria impotente, como se nela e através dela pisasse o solo do impossível e secasse a lágrima do peixe.
 O Século XX passou como um sonho no qual o sonhador sonhou que sonhava. O despertar prometia uma nova razão para viver, mas o fato se impôs novamente com sua necessidade cega, suas urgências fabricadas, suas formas customizadas, seus acordos e suas trapaças; com a vigência de suas normas, seus parâmetros acríticos e suas forças corporativas, suas cidades embalsamadas, os nós de suas forcas apertando as consciências iludidas, ludibriando a inocência dos ingênuos em tempos que cuidam de manter os fluxos do capital correndo nas veias desgastadas de um mundo sujeito para sempre às forças mercantis da destruição, ao mal que se perpetua invadindo as casas, as casernas e as universidades, ampliando a guerra e condenando o corpo, essa sombra dilacerada de si mesma, a repetir a mímica do vencedor, vendendo-se no mercado do passado, sem nenhum futuro. 
Quem seria capaz de nos condenar se tentarmos a fuga? Se flertarmos com o desespero? Se usarmos nossa última força na construção de uma derradeira astúcia? Se nos escondermos detrás de um muro construído com o material da derrota em nossa Champot imaginária? O que esperar do século XXI, senão a confirmação da profecia? 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA FILOSOFIA ARISTOTÉLICA


A filosofia de Aristóteles se caracterizava, antes de tudo, pelo seu realismo, pela sua observação fiel da natureza, pela sua objetividade científica, pelo seu rigor metodológico e pela unidade harmônica do seu sistema que constitui uma síntese orgânica e maravilhosa. Vejamos os aspectos fundamentais da filosofia aristotélica:

a) Para Aristóteles o indivíduo é real e possui existência efetiva. É uma substância como a matéria e a forma. No entanto, há que se distinguir entre os sentidos da substância, determinando qual dentre eles é o mais próprio e o mais impróprio.
Conforme determinou G. Reale, a substância é, num sentido impróprio, matéria; num segundo sentido, mais próprio, é o sínolo; e, num terceiro sentido e por excelência, é a forma: ser é, pois, a matéria; ser, em grau mais elevado, é o sínolo; e ser é, no sentido mais forte, a forma. Assim compreende-se por que Aristóteles chamou a forma até mesmo de “causa primeira do ser” [ Metafísica, Z 17, 1041 b 28], justamente enquanto informa a matéria e funda o sínolo. [Cf.: Reale, G. História da filosofia antiga, vol. II, pg. 358.]

b) Causa é todo princípio que influi sobre a existência de um ser. Aquilo que estrutura e que condiciona a sua existência. Há quatro gêneros de causa: a material representa a matéria de que a coisa é feita; a formal constitui aquilo que, acrescentado à matéria, a determina ser esta ou aquela coisa; a eficiente representa aquele por quem ou aquilo por intermédio de que a coisa é feita; a final constitui aquilo para que ou em vista do que a coisa é feita.

c) Os seres mudam em virtude do ato e da potência. Ato é perfeição, potência é capacidade de perfeição. Toda mudança é uma passagem da potência ao ato. Esta passagem chama-se movimento, no sentido ontológico. Todos os seres são compostos de potência e ato, exceto Deus que é Ato Puro.

d) A mudança sugeriu a Aristóteles a teoria da matéria e da forma. Em toda transformação há um substrato que não se altera e passa de um estado a outro - é a matéria O que a matéria perde ou adquire nas mudanças é a forma. Todo corpo é composto de matéria e forma. Antes de receber a forma, a matéria diz-se em potência, e, depois de recebê-la, em ato.

e) O homem, como todos os seres da natureza, é composto de matéria e forma. O corpo é a matéria e a alma é a  forma. Assim, o homem é uma substância composta, resultante da união do corpo e da alma. Distinguem-se três espécies de alma, correspondentes aos três graus de vida: vegetativa, sensitiva e racional. No homem, a alma é o princípio de todos os fenômenos vitais. Os instrumentos de sua atividades são de cinco espécies: nutritiva, sensitiva, apetitiva, locomotiva e racional.

f) Existem duas formas de conhecimento: o sensitivo e o intelectivo, distintos, mas intimamente relacionados. As idéias, formas de conhecimento intelectual, não são inatas. São adquiridas pela alma, através do processo de abstração, realizado sobre a imagem sensitiva, por intermédio de uma faculdade especial - a inteligência ativa.

g) O fim supremo do homem é a felicidade. A felicidade é o resultado do desenvolvimento harmonioso das tendências (potencialidades) de um ser. É a conseqüência natural do exercício perfeito da atividade que o especifica. Sendo a razão a atividade característica e essencial do homem, a contemplação de Deus, que é a verdade mais alta e inteligível, será o seu fim último e a sua felicidade suprema. O Meio de alcançá-la é a virtude que consiste em dominar os apetites irracionais e em subordinar a atividade prática ao império da razão.

h) Em síntese, podemos dizer que Aristóteles repudia a teoria platônica das idéias por um motivo básico: nela os conceitos são todos substância apenas (conteúdo) e não sujeito (forma) - elas possuem uma simplicidade inerte sem qualquer necessidade inerente de dar forma a si mesmas e encarnar-se. Sendo assim, suas várias manifestações sensíveis permanecem um mistério. Elas não podem, assim, explicar convenientemente a realidade das coisas segundo o movimento auto-constitutivo das mesmas, porque não mostram a estrutura interior à própria coisa que lhe obriga a ser o que é.
A matéria é aquilo que dá à coisa a possibilidade de ser, a forma efetiva a possibilidade dada pela matéria organizando-a em uma unidade segundo a perspectiva da finalidade, fazendo assim que a mesma penetre no reino dos fins e inicie seu movimento auto-construtivo peculiar. Explica-se, portanto, não só o que a coisa é, mas também por que e como ela vem a ser o que é.
O mundo para Aristóteles compõe-se, portanto, destas duplas determinações: matéria e forma - potência e ato - sendo assim, ele não é apenas “matéria inerte” mas, essencialmente, “força criativa”.



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

SOBRE A FILOSOFIA II

O mundo tem visto alguns filósofos maravilhosos. Desafortunadamente, as pessoas não têm podido entender as palavras que esses grandes filósofos escreveram. Muitos dos seus escritos parecem ter sido feitos para estudiosos que já sabem o que está sendo discutido ali. O resto de nós, provavelmente, teria de passar meses ou anos tentando imaginar o que eles estariam dizendo e por quê.
Se pudéssemos começar do princípio, com uma introdução sensível e compreensível, seríamos todos capazes de entender algo do que os filósofos estão falando. Isto seria de imensa valia para nós, não só porque nos levaria a compreender alguns pensamentos profundos que poderíamos distribuir nas festas, impressionando os amigos, mas porque é bom, pelo menos uma vez na vida, ficarmos expostos a algo um pouco mais provocante que os programas de TV. Algo no qual todos nós estejamos envolvidos e que fale a nós todos.
Por exemplo, uma pessoa que lê, e entende, os pensamentos de um filósofo sobre a justiça, prosseguirá com um sentimento de ter-se tornado uma pessoa melhor - com um sentimento aumentado de que ele ou ela deve crer na justiça e na verdade, e que é importante para todos falar de tais coisas. Esta mensagem não é algo que você tire necessariamente do jornal diário, e ela também não aparece muitas vezes no seu ambiente de trabalho, e quando as pessoas dogmáticas falam dela, elas falam de uma forma muito restritiva, evitando tratar da justiça e da verdade como coisas que são importantes e igualmente válidas para todas as pessoas.
A motivação filosófica é um impulso natural no homem? A propósito William James afirma existir em todos nós um curioso fascínio em ouvir falar de temas amplos e de coisas profundas, mesmo que não os compreendamos inteiramente. De qualquer forma sentimos a vibração contagiante do problema, sentimos e gostamos da proximidade da vastidão. Se num recinto público qualquer, por exemplo, começa-se a estabelecer uma controvérsia sobre o livre-arbítrio ou a onisciência divina, ou mesmo sobre o bem e o mal, imediatamente todos no lugar aguçam os seus ouvidos e, se a ocasião permitir, entram imediatamente na discussão. Isto porque os resultados da filosofia concernem a todos nós de maneira extremamente vital, as palavras são de James, e os estranhos argumentos que ela elabora roçam agradavelmente em nosso senso de sutileza ou ingenuidade. “A filosofia é, ao mesmo tempo, a mais sublime e a mais trivial das atividades humanas”.(William James, Pragmatism )
Julgando pelo amontoado relativo de tempo que as pessoas gastam lendo e falando acerca da justiça e da verdade, comparado, por exemplo, com o tempo que gastam discutindo sobre a melhor forma de aplicar e investir dinheiro, ou sobre a decoração da casa, ou sobre o carro importado que querem comprar, devemos ser levados a crer que essas pessoas não acreditam (ou pelo menos não se dão conta) que tais valores básicos são muito importantes. Mas eles são. Se isso é verdade, então aqueles de nós que se importam com tais questões teriam mais razões para tornarem-se ainda mais capazes de pensar e falar dessas coisas.
Há uma curiosa história contada por Platão sobre Tales de Mileto: “Enquanto observava as estrelas, olhando para o alto, Tales caiu em um poço. Presenciando o acontecido, uma espirituosa serva trácia diz-lhe gracejos: ele queria saber o que havia no céu, mas permanecia-lhe oculto o que estava diante dele e a seus pés.” O filósofo no poço nos mostra o pouco caso que o senso comum faz da filosofia. Não sendo capaz de compreender o sentido e importância das indagações filosóficas, o homem comum zomba delas como o cachorro que late para aquilo que não compreende. Porém Platão dá a história uma interpretação mais profunda. “A mesma troça atinge a todos os que vivem na filosofia. De fato, a alguém assim se oculta o que é próximo ou vizinho, não apenas com respeito ao que faz, mas também a se é realmente humano ou não. Se obrigado a falar diante do tribunal, ou em qualquer outro lugar, sobre o que está a seus pés ou diante de seus olhos, o filósofo provoca risos não só de moças trácias, mas de todos os presentes. Por sua inexperiência, cai em poços e na perplexidade; sua espantosa falta de jeito faz com que pareça ingênuo”. (Weischedel. A escada dos fundos da filosofia.) 
Platão foi menosprezado pelo público ateniense quando lhes dirigia um discurso acerca do Bem; Hegel foi desafiado por Krug a deduzir racionalmente a pena que usava para escrever os seus textos. Em todas as épocas as pessoas demonstram não saber do que a filosofia  trata e tentam ridicularizá-la, porém, vem o decisivo: “ Mas o que é o homem e o que, diferentemente dos demais seres, cabe a ele fazer e sofrer -, é isso que o filósofo procura e se esforça para investigar.” Assim a coisa se inverte: quando se trata da essência da justiça, da virtude e de outras coisas de maior valor, são os outros que vacilam e não sabem o que fazer e se tornam ridículos. E então terá chegado a vez do filósofo.
O mundo possui muitas tradições filosóficas e, se o tempo permitisse, deveríamos estudá-las todas. Mas, se pudéssemos estabelecer prioridades, deveríamos começar por aquela tradição que mais impacto causou na cultura ocidental e mais luz trouxe aos nossos problemas. Deveríamos começar com a  Grécia antiga - e, ao longo do estudo, com certas modificações de percurso introduzidas pelas fontes clássicas de Roma e do Cristianismo. Estas tradições filosóficas foram responsáveis pela formação da maior parte do pensamento jurídico, político, social, científico e cultural da Europa e da América.
Assim, talvez pudéssemos saber quem nós somos, cobrando de nós mesmos o que fomos. E assim, conhecendo aquilo que nos consiste, não naufragaríamos no mar tumultuoso de nossas próprias circunstâncias. Conscientes disso estaríamos aptos a nos transformar em pessoas melhores, plenamente desenvolvidas e livres, capazes de gozar da verdadeira felicidade que só a total realização de nossa própria natureza nos capacita. Amando e conhecendo o que há de melhor em nós mesmos não estaríamos a mercê dos prazeres fugazes e dos gozos passageiros, mas seríamos como o bom timoneiro que conduz a nave a bom porto e ancora na plenitude do existir.
Não há a menor dúvida sobre quando a filosofia grega atinge o estatuto de um sistema universal de pensamento. Como disse Alfred North  Whitehead: “A mais segura caracterização geral da tradição filosófica européia é que ela consiste numa série de notas de pé de página às obras de Platão.”
Começar a filosofar e começar por Platão. Ora, mas Platão não é um pensador muito distante de nós, de forma que não tem mais nada a nos dizer hoje? Mas não, Platão continua a nos dizer muito porque em todos os seus textos é de nós que ele fala, “do homem preso na tripla problemática característica do seu destino: do indivíduo que procura a satisfação, do cidadão que quer a justiça, do espírito que reclama o saber; e a sua fala ressoa singularmente porque emana de um tempo e de um lugar de origem onde foram tomadas, em circunstâncias excepcionais, decisões que, doravante e por mais invenções que depois fossem feitas, determinaram  a nossa cultura.” [ Chatelêt, Platão ]



A PROPÓSITO DA FILOSOFIA


Qualquer um que reflita por um momento sobre a conjuntura em que vivemos nos dias atuais descobrirá que o nosso mundo é totalmente avesso ao patrimônio filosófico. Vivemos em uma sociedade da imagem que despreza o conteúdo e fixa-se nas aparências generalizantes e nas formas inertes que não se movem por si, mas empurradas pelos interesses materiais daqueles que nos querem escravizar.  O mundo do espetáculo é também aquele das sombras e dos simulacros em que o que vale sempre é o que menos se pode dotar de valor.
Fragmentação, fuga para o irracional, isolamento e alienação são as realidades que nos governam enquanto não nos tornamos capazes de nos governar, de romper com as exterioridades e aparências fugidias e nos apossarmos da verdade que está em nós mesmos, em nossa capacidade de pensar e agir de forma consciente e plena. Quem aposta na consciência dá um passo rumo à filosofia e este passo significa um salto na direção de sua própria emancipação.
 A filosofia constitui antes de tudo uma redescoberta do mundo que começa como um pensar por conta própria. Ernst Bloch disse que quem pensa por si mesmo não aceita nada como fixo nem definitivo, nem os fatos amansados nem as generalidades inertes, menos ainda os chavões cheios de odor cadavérico de nossa caverna pós-moderna. "Mas aquele que aprende de verdade deixa-se afetar ativamente pela matéria, considera-se capaz de viver sobre a marcha e romper as cascas das coisas: encontra-se como a sentinela nos postos fronteiriços da vanguarda. Quem ao aprender comporte-se passivamente limitando a assentir com a cabeça, logo cairá no sono. Ao contrário, quem esteja na coisa e marche com ela, por seus caminhos não trilhados, alcança a maioridade e se encontra enfim em condição de distinguir entre o amigo e o inimigo e de saber onde a verdade abre caminho.”[1]
É ainda Bloch quem afirma, “O trote do burro levado pelas rédeas é cômodo, sem dúvida, mas os conceitos enérgicos são os que correspondem à juventude e à virilidade.”[2]
Nós que nos perdemos nas contradições do relativismo, que escolhemos a trilha mais fácil e nos desorientamos na selva dos estímulos que apelam aos nossos desejos mesquinhos sem nos oferecer o mapa que nos conduza para fora do labirinto, devemos arriscar algo que a maioria recusa-se a experimentar. Tentar encontrar a saída por nós mesmos, dispondo de nossos próprios recursos. Para isso necessitamos nos apoiar em uma tradição de pensadores críticos que diagnosticaram a nossa miséria, sem, no entanto, terem conseguido eles mesmos superá-la. Devemos apelar para a tradição dos fracassados. Fazer um pouco de filosofia marginal. 
Ser é fazer-se e o humano é aquele que se faz ao se construir constantemente como tal. No caminho do conhecimento, da liberdade e da realização pessoal a filosofia crítica e os filósofos radicais, aqueles que tomam as coisas pela raiz - e, segundo Marx, a raiz do homem é o próprio homem - nos fornecerão a bússola que norteará nosso caminhar. Não caminharão por nós, mas nos forçarão a fazê-lo por nós mesmos. Só assim podem nos ajudar, porque somente desta forma querem nos orientar: servindo de exemplo e guia  no trajeto de nossa autoconstrução.



[1] BLOCH. Subjekt-Objekt. Erläuterungen zu Hegel. Suhrkamp Verlag, Frankfurt. 1962. Trad. Plinio Toledo.
[2] IDEM

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Logos de Heráclito



“Este Logos, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este Logos, parecem não ter experiência experimentando-se em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo e explicando a natureza de cada coisa. Os outros homens  ignoram o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem durante o sono.” Heráclito
  
O fragmento 1 era evidentemente o proêmio da obra de Heráclito e nele, como era costume nos tratados da época, começa-se por falar da própria obra, denominada, também, habitualmente Logos, ou seja, algo assim como coisa que se diz, relato, discurso. O problema é que Logos é para Heráclito muito mais que isso; é um conceito crucial de sua própria interpretação do mundo. Além de ser o discurso de Heráclito que, como tal, pode ser ouvido por seus ouvintes- e, ao que parece, não compreendido- é a linguagem mesma, pelo que é amiúde qualificada por seu autor de comum. Porém há mais: Heráclito herda  outra antiga acepção do termo que em grego valia como proporção e, na boca do filósofo, chega a constituir-se em um tipo de princípio, padrão ou norma  universal , uma espécie de estrutura de acordo com a qual ( e segundo cujas proporções ) acontecem todas as coisas no mundo. Um padrão de natureza dialética.
Logos é, portanto, uma explicação lingüística e, ao mesmo tempo, uma entidade real, dentro da unidade própria do pensamento arcaico, entre o homem e a coisa. Daí a tradução Razão, que em português reflete palidamente o logos original, porém ainda conserva em nossa língua essa tripla conotação lingüística, aritmética e lógica. ( Garcia Calvo assinala que em espanhol o termo razão guarda a mesma tripla conotação )

Marcovich agrupa dois fragmentos ( 23-24 ) sobre a base de que se trata de inferências acerca do caráter comum, isto é, da validez universal da razão, que interpreta como estendida a quatro planos:
a) o lógico- a razão é operante em todas as coisas ( fr. 23, cf. o 1 );

b) o ontológico- segundo o qual a razão é um  substrato unificador sob a pluralidade de manifestações das coisas, quer dizer, constitui a unidade do mundo;

c) o gnosiológico- segundo o qual a compreensão da razão é condição imprescindível para a correta  compreensão do mundo;


d) o ético- a razão é também um guia para a conduta diária.

Uma palavra sobre a Physis

Em sentido geral, o termo grego physis designa, no contexto da filosofia pré-socrática, a Natureza, entendida não só como a totalidade do mundo físico imediatamente apreensível aos sentidos, mas, especificamente, como o fundo primordial de onde dimanam todos os componentes do cosmos, sobre cuja base estes componentes se sustentam e ao qual retornam após terem cumprido o ciclo de suas existências. 
Além de significar a Natureza tal como é comumente entendida, a palavra physis abarca também, segundo o que assevera Werner Jaeger, “o fundo originário das coisas, aquilo a partir do qual se desenvolvem e pelo qual se renova constantemente o seu desenvolvimento; em outras palavras, a realidade subjacente às coisas da nossa experiência.”[1] (grifos meus)  John Burnet, por sua vez, afirma que “na língua filosófica grega, Physis designa sempre o que é primário, fundamental e persistente em oposição ao que é secundário, derivado e transitório.”[2] (grifos meus)
Como é possível depreender do significado filosófico do termo physis, a filosofia nasce e começa a se desenvolver na Grécia a partir de um novo posicionamento do homem diante do mundo. Conforme observou Garcia Morente,
O primeiro esforço filosófico do homem foi feito pelos gregos e começou sendo um esforço para discernir entre aquilo que tem uma existência meramente aparente e aquilo que tem uma existência real, uma existência em si, uma existência primordial, irredutível a outra. (...) Estes filósofos gregos procuram qual é ou quais são as coisas que têm uma existência em si. Eles chamavam a isto o ‘princípio’, nos dois sentidos da palavra: como começo e como fundamento de todas as coisas.[3]  

A physis é este “princípio”, este começo e fundamento a que se refere Garcia Morente. Desta forma, podemos afirmar que se a consciência mítica do homem primitivo operava mediante um embaralhamento espontâneo da realidade cotidiana com a sobre-realidade sacramental, embaralhamento este resultante de uma inserção mais ou menos completa da existência humana na paisagem natural, a consciência filosófica, em sua configuração primeira, já executa a dissociação, a distinção entre dois planos distintos de realidade: ela começa desde então por distinguir entre uma existência meramente contingente daquilo que é necessário e fundamental, entre as coisas que aparecem e o princípio ou fundamento que lhes confere existência e significado.
No contexto do teísmo dos pré-socráticos, physis significa a substância física primordial, o princípio ou arché, da qual eram feitas as coisas e o processo de crescimento destas mesmas coisas. Esta substância era viva, daí divina e, logo, imortal e indestrutível.
Assim, a physis dos primeiros filósofos tinha movimento e vida, mas com a remoção enfática, feita por Parmênides, da Kinésis  do reino do ser, a noção de physis foi, de fato, destruída, passando a iniciação do movimento para agentes exteriores, v.g. o “Amor” e o “Ódio” de Empédocles (cf. Diels, frg. 318 A 28) e o Nous de Anaxágoras.
É neste sentido que se pode afirmar dos milesianos que eles representam o exemplo mais característico dos fisiólogos, daqueles que orientaram a sua pesquisa no sentido de determinar o princípio material imanente ao cosmos.




[1] Jaeger, Werner, La Teologia de los primeros Filosofos griegos, México, F.C.E., 1952, pág. 26.
[2] Burnet, John, L’aurore de la philosophie grecque, Paris, Payot, 1952, pág. 26.
[3] Morente, M.G., Lições preliminares de filosofia, São Paulo, Mestre Jou, pp. 68/69.